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PROJETO QUIXABEIRA
Farinhada para 2.000 na Festa da Quixabeira.
O discurso de José das Chagas andava meio desacreditado entre os companheiros da pequena Tapuio, comunidade agrícola no município de Araci, no sertão baiano. Todo o esforço para criar um movimento sindical consistente na comunidade parecia inútil e não porque ele fosse pouco merecedor da confiança dos companheiros. O problema, Chagas descobriu depois, era a falta de auto-estima. Falta de confiança que impedia o pessoal de Tapuio de avançar.
A ausência de auto-estima é como uma doença crônica nas comunidades pobres, urbanas ou rurais. Produz uma atitude de desconfiança, que resulta do sentimento de inferioridade.
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Boi Samba Mulinha da cidade de Biritinga apresentando Reisado, Boi e Mulinha.
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Foi com essa desconfiança que o próprio Chagas ouviu pela primeira vez a proposta do músico carioca Bernard von der Weid para recuperar a tradição musical do recôncavo baiano, no início dos anos 90. A idéia era começar gravando um disco com as cantigas de trabalho típicas da região.
Chagas resistiu. Mas, felizmente, por conta da experiência como sindicalista, não por muito tempo. O disco saiu em 1992. Chagas acabou se envolvendo com o projeto e ajudando a articular os músicos de seis municípios para realizar a primeira Festa da Quixabeira, em 1997. O encontro reuniu cinco grupos.
Em pouco tempo, a festa se transformou no grande evento de celebração das tradições musicais do recôncavo. Há três anos, Chagas assumiu formalmente a presidência do Movimento da Quixabeira, criado com a missão de recuperar a auto-estima do sertanejo através da música.
Em sua sétima edição em Outubro, a Festa da Quixabeira reuniu 2.000 participantes no município de Biritinga, a quatro horas de Salvador. O dobro dos últimos anos, segundo Weid. Em grande parte porque, com a ajuda da doação feita pela BrazilFoundation, os organizadores puderam garantir o transporte para metade dos 19 grupos, de quinze municípios, que se apresentaram durante os dois dias do evento.
Um ponto alto da festa foi a apresentação da Farinhada, pelo grupo de mulheres da comunidade de Santa Bárbara, município de São Nicolau. O ritmo marca as etapas do difícil trabalho de produção da farinha de mandioca e estava esquecido, como tantos outros, por falta de uso. "Foi uma encenação teatral, emocionante", diz Weid.
A Pisa do Milho é outro ritmo que os trabalhadores resgataram para mostrar na festa. "Eles eram os grandes artistas do evento", diz Susane Worcman, vice-presidente da BrazilFoundation, que participou do encontro. "Todos muito orgulhosos de seu papel."
Ao longo dos anos, o Movimento da Quixabeira ajudou a resgatar 16 ritmos musicais que, de outro modo, estariam fadados ao desaparecimento. Com eles, os trabalhadores resgataram também a confiança em seu poder de ação. Chagas, que ficou conhecido entre os músicos como Zeca do Tapuio, ainda se espanta com a capacidade de realização de seus companheiros. "Nem parece que foi a gente que fez isso tudo", ele deixa escapar.
- Por Neide Magalhães
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